terça-feira, 29 de junho de 2010

Começo do fim

Depois de um belo e ensolarado fim de semana em Paris e de um bom jogo classificatório da Seleçâo hoje foi dia das minhas primeiras despedidas à algumas pessoas por quem criei um grande carinho nos últimos meses: as mamies da aula de ginástica!

Como aqui o ano letivo vai de setembro a julho, tudo acaba e pára no fim de junho. Todo tipo de escola, curso, faculdade - instituições de ensino no geral. Se precisar daquele documento super importante que só a secretaria da faculdade pode te dar, esqueça! Antes de setembro você não terá acesso à nada! Mas enfim, tudo isso pra dizer que hoje foi o último dia do curso de ginástica com as senhorinhas de Lesquin! E depois disso, a sala ficará fechada até dia 06 de setembro, quando elas recomeçam e se reencontram. E eu estarei, provavelmente ao mesmo tempo, dentro de um avião - voltando pra CASA!

Não teve dança, nem musculação ou abdominal. Foi uma longa sessão de relaxamento e alongamento pra nos preparar pra praia, calor e caminhadas embaixo de um sol de 30 graus que tá pintando por aqui! E seguido de tudo isso, outra sessão de beijos, agradecimentos e desejos de boa sorte pra quando estiver de volta ao meu país. Realmente umas queridas. Me receberam com carinho e respeito desde o início no meio delas e foi da mesma maneira que se despediram.

Fiquei muito feliz e senti o coração abraçado! Ao mesmo tempo deu aquele medinho.. um friozinho na barriga que me fez lembrar que só tenho mais dois meses aqui. O jeito como elas falavam que setembro está aí.. ai ai ai!! E pior - ou melhor, não sei! - é que ele está mesmo.

A programação daqui pra frente é de mais despedidas das copines que partem antes que eu, viagens, sol, férias das crianças e finalmente: minhas férias de verão! Depois, num piscar de olhos estarei de volta ao lar. Acordarei do meu sonho e de volta à realidade. E vocês podem não acreditar, mas a realidade está me fazendo muita falta! Acordar cedo, pegar trânsito pra ir trabalhar, passar o dia sentada na frente do computador e ser interrompida num momento crucial pelo telefone! À noite: esportes, cursos, jantares com as amigas, visitas aos irmãos... Mas principalmente dormir e acordar ao lado das pessoas que eu amo!

E eu sei, ninguém precisa negar. Vocês também estão morrendo de saudades de mim! É normal, eu sou uma pessoa muito agradável e minha ausência deve ter deixado um certo vazio na vida de vocês! Hahahahahaha Pros saudosos de plantão: podem começar a contagem regressiva - eu já to no começo do fim!

domingo, 20 de junho de 2010

A Copa da SeleçÂo!

Quando a gente é brasileiro, é brasileiro em qualquer lugar - e tem orgulho disso. Principalmente quando se trata de futebol.
Desde as vésperas do ínicio da Copa do Mundo que eu venho escutando apostas de vitória, piadas e frases cheias de expectativas pelo desempenho da, como eles dizem, Seleçâo. É engraçado como todo mundo nos reconhece pelos bons jogadores de futebol e, a maioria, nos tem como segunda opção - se meu país não ganhar, quero mais é ver o Brasil em campo.

Eu sempre gostei de torcer, assistir jogo, vibrar com os gols ou boas jogadas, xingar juíz de ladrão, sofrer as perdas. Tudo isso tem pra mim o mesmo valor que um bom filme. São duas ocasiões em que eu me transformo, coloco a adrenalina e os sentimentos (bons ou ruins) pra fora. Saio de um jogo assim como saio de uma sala de cinema - de alma limpa! E olha que eu tô longe de ser torcedora roxa, de entender de bola, ou mandar bem nas embaixadinhas. Acho que é instinto de brasileiro.

Esse ano de Copa longe de casa, longe dos bares com telão, cerveja e amigos me fez entender muito mais sobre a paixão do brasileiro pelo futebol. Me fez acreditar mais na importância da vitória, compreender porque pra nós toda copa é a copa da vez. A gente vive o futebol. Não deixa de trabalhar pelo filho doente, mas deixa em dia de copa ou de clássico. Milhões dentre nós nem sabem distinguir um ataque de uma defesa, mas vestem a camisa e jogam junto com o time do coração até os 45 do segundo tempo. Isso tudo é bem visto pelos estrangeiros - pelo menos pelos que eu encontrei por aqui - e vale lembrar que não conheci nenhum argentino!

Eles tem grande prazer em torcer por nós, em nos ver torcer e até em nos ver ganhar. Em casa com a famille, dia de jogo do Brasil é quase mais importante que dia de jogo da França. Enfim, foi mais importante, já que les bleus: já eram! Fizeram um papelão dentro e fora de campo. Muita palhaçada e pouco futebol. O legal é que noventa por cento dos franceses que eu conheço já me disseram mais de uma vez que ainda bem que eu estou aqui, assim eles tem uma desculpa pra torcer pelo Brasil. Eu até fui solidária no começo, querendo ser recíproca na torcida, acompanhei os jogos da França com eles fingindo apoiar, mas meu coração verde e amarelo queria mais era ver os azuis de volta pra casa! Pra mim, se não for Brasil, não preciso nem assistir a final, deixa de ser importante!

Tô torcendo pela Seleçâo de corpo e alma, com vontade de ver o hexa na casa de quem nos robou o penta em 98. Meio vingativa eu diria... Vontade de gritar aos quatro cantos que o que é nosso ninguém tira!

Mas não foi só sobre o Brasil que a visão mudou. Pros interessados pela minha volta, vai uma boa notícia. Eu agora tenha três motivos que me impediriam de morar aqui pra sempre:
- O clima,
- As greves e
- O futebol!!!

Allez les jaunes!!!
Seis beijos pra seis estrelas!

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Aproveite.

Esses dias, durante um curso de francês, eu aprendi a origem das palavras BONHEUR e MALHEUR que em francês significam respectivamente Felicidade e Infelicidade.
A simplicidade e a inteligência com que elas foram formadas me fez admirar ainda mais essa língua e os velhos franceses que criaram tudo isso. Tá certo, eles complicaram um monte minha vida colocando três acentos em uma palavra só, milhares de tempos verbais e um biquinho diferente pra cada utilização da letra U. Mas eles também me deram a vontade de aprender, escutar, e, dessa vez, de escrever sobre as usuais reflexões em torno da felicidade.

Deixa eu explicar: Bonheur não é nada mais do que a junção das palavras Bonne (boa) e Heure (hora), e Malheur é exatamente o contrário. Uma boa hora, um bom momento - e não é só disso que é formada a felicidade? De receber uma flor pequena e amassada arrancada do jardim da escola depois de um dia cansativo. De uma mudança de apartamento. Do fim de uma contrução de 2 anos que finalmente nos dá um lar. De um emprego mais perto de casa. De um emprego mais desafiador. De um sorriso de um bêbe. Da notícia de um novo bêbe. Das borboletas no estômago causadas por um novo amor. Do primeiro dia de aula, e do último também. Da divisão de sentimentos. Da troca de carinho. De um e-mail daquele amigo tão querido. De uma palavra. De um gesto.
E o contrário? Não é ele também rápido e passageiro? Um mau momento de trânsito. A batida de um carro. A dor física. A perda de uma pessoa querida - pra vida ou pra morte. A falta de companhia. O cansaço. O medo. A lágrima. O Adeus. O escuro - do quarto ou da alma.
Tudo isso passa. Cedo ou tarde, passa.

Mas é das coisas boas que eu quero falar. Quero falar de abraços, de piadas, de músicas de infância. Quero gritar a realização de um sonho, o amor, a paz. Quero incentivar o perdão, a coragem, o sorriso. Quero agradecer a amizade, a família, a iniciativa. Quero ser o bem, a sorte, o refúgio. Quero dividir a palavra, a idéia, a gargalhada. Quero que seu dia comece e termine com um sorriso no rosto, mesmo que você tenha más horas entre esse tempo. Quero que a sua vida, assim como a minha, seja um coletivo de bons momentos - afinal não são eles, a tradução ao pé da letra da felicidade?
Pare de buscar lá longe. Tá tudo aí bem pertinho de você, do jeito que você plantou é o jeito que você colher!

Que cada hora, boa ou má, seja vivida intensamente por cada um de nós!

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Eu tenho uma boneca assim....

O começo do meu relacionamento com a Jeanne não foi nada fácil. Desde que cheguei aqui ela queria mostrar que era ela quem mandava, impor suas regras, não se aproximar de mim e nem brincar muito comigo... Coisas que eu entendi perfeitamente, dada a situação. Mas o que ela não sabia é que eu não me daria por vencida tão cedo! Levou cerca de um mês pra que, com meu jeito, eu conquistasse seu respeito e confiança, e a partir daí, é que vieram a amizade e o carinho.
Talvez vocês se lembrem que nessa época mais complicada, uma das coisas que fiz pra mostrá-la que eu realmente me importava, foi participar de uma das excursões da escola, ajudando a professora a cuidar das crianças - coisa que marcou totalmente a mudança da maneira como ela me via aqui.

Hoje, às vésperas de completar nove meses de casa, eu posso falar de boca cheia que o que temos é uma relação deliciosa baseada no respeito e no amor. Eu compreendo as necessidades e inocências infantis dela e ela entende o porquê das minhas regras, broncas e preocupações. Tudo isso se transformou numa relação tão natural que às vezes, sem nem perceber, ela me chama de mamãe; depois me olha, dá risada e pergunta se eu ouvi que ela se confundiu mais uma vez... Eu, por minha vez, tenho ela como minha bonequinha, com quem eu brinco de casinha todos os dias... me faz pensar na velha musiquinha da boneca de Paris, que eu sempre gostei tanto, e que, aparentemente, se tornou realidade!

Tem meses que ela não me dá nenhum trabalho ou problema. Às vezes ela faz umas besteiras, como há umas duas semanas quando ela cortou a toalha de mesa da mãe dela. Mas basta conversar, dar um casitguinho de leve, que ela reconhece o erro e não o faz mais. Como minha estadia com a famille e o ano letivo dela estão chegando ao fim, resolvi que estava na hora de recompensá-la, da mesma maneira que tudo começou. Me ofereci à professa para acompanhá-los na apresentação do coral da escola numa cidade aqui perto. Desde o momento que ela disse sim, até a excursão acabar, a Jeanne não parou de me beijar, abraçar e agradecer. E é vendo essas coisas que a gente percebe o que o uma criança realmente quer - e é tudo tão simples. Você dedica três horas do seu dia pra estar ao lado dela e pronto - você é o maior ídolo que já existiu na face da terra. E que Superman, que nada!

Fomos nós, terça-feira, dia 01 de junho. Eu, Jeanne e mais 28 crianças! Foi a mesma euforia da última vez, um monte de baixinhos me rodeando, querendo me dar as mãos, me contando as cores dos seus carros, onde eles moram, ou quando foi a última vez que eles fizeram xixi nas calças. Ela, toda orgulhosa, não largou da minha mão direita, e explicava a cada um que se aproximava: "Ela chama Estelá e vem do Brasil. Lá ela fala brésilien, mas aqui ela fala francês porque ela é a MINHA tatie." Hahahah foi engraçado e emocionante.

O coral então, nem se fale. Ver aquelas pessoinhas ali no palco, todas sorridentes, cantando tudo errado, mas se sentindo os maiores artistas da França. Ela que me mandava um tchauzinho a cada fim de música e que no fim veio correndo me abraçar e perguntar minha opinião. Que claro, era a mesma que a deles: vocês são os melhores artistas da França!
E, se vocês assistirem ao meu vídeozinho abaixo, talvez também concordem comigo!




Não sei como será a nossa separação, mas tenho a impressão que não será tão difícil quanto ela se anuncia. Pra ela é a quarta vez que isso acontece, pra mim, não é nada comparado ao que foi deixar minha família por um ano pra viver tudo isso. Acho que assim como o início de tudo, o fim será um pouco complicado, mas natural.

Sei que estão de feriado prolongado por aí. Desejo um ótimo fim de semana a todos e que aproveitem bastante!
Fica nosso beijo: